
Por Estocador
É noite, o mar está calmo, sereno, o horizonte, desconhecido, infinda nesta imensidão natural. O vento é inconstante quanto à sua intensidade e direção, ora em rajadas ou leves brisas; norte, sul, oeste, leste. Lua minguada, muitas nuvens, suponho. Repentinamente, naquele horizonte impenetrável, um conjunto de pequenas luzinhas. Estamos navegando pela superfície para carregar as baterias do motor elétrico, e certamente aquela é uma esquadra aliada. A metade do grupo descansa, preciso retornar para o interior do U-Boat.
O comte. Brennt já avistara a armada. Os acordados estão atentos. Se nos virem, o que faremos?! Estamos em tráfego de retorno a nossa balsa atracador, sem torpedos, sequer ração ou munições de menor calibre. E eles estão bem à frente, sobre nossa linha. Penso, “porventura estejam eles a nosso aguardo”? Tiveram conhecimento de nossa rota de recuo? Ou meramente cruzam estas águas transatlânticas rumo a outra ofensiva. Não me importa quem são ou quê façam, estamos todos no mesma nau da destruição, mas preciso existir até o final. A questão não é trucidá-los, mas manter ar ininterrupto em meus pulmões.
“Desperte todos, Heinz, e faça com que evitem qualquer ruído”, murmurou-me o comte. Herr Brennt anunciava cansaço. Os olhos, de um castanho escuro e arriados, denunciavam alguma dor que da qual nem ele mesmo obtinha seu motivo. Mas arrisco palpite: Brennt, homem de família, esposa e filhas à sua espera em nossa München², ele, até mais que eu, necessitava continuar sua existência; pois sou apenas mais um em nossa Deuschtland³; Ich bin einen Leutnant, nur! Aber, ist er der Kommandant!4 Ei, psiu! Danuser, Danuser, acorde: problemas… Gebruder, tu, levanta… Hintereder… Mülller… Kruspe… Gerber!
Certo é que a armada já estava bem próxima. E a ordem foi desligar motores e qualquer sinal, energia, luzes, tudo. E voltamos para as profundezas do oceano, na esperança que a esquadra, sobre nós, passasse sem que nos percebesse sob suas blindagens de aço. Gott5, assim sucedeu! Mas não sem que nossas almas sentissem o abalo daquilo que figura ser estar ante a porta do inferno; a tensão pré-morte. Meu corpo estremecia, pernas, qual sua função? Não pude conter-me de pé, deitei-me afim de evitar, sim, nem mesmo a respiração era permitida. Cerrei os olhos com frenesi, porém, audição ainda me era presente, quando por meio dela me invadiu o corpo, como que reunidas sob as regras de sonetos da morte, a sinfonia da circularidade das hélices, cujo metal rasgava barroco as frígidas águas de cujos graus cortantes implorava a Deus para que não, pelo menos ali, entranhassem nesta minha indigente carcaça. As hélices passaram apressadas.
Assistirá a nossos colegas de outros U-Boats a mesma sorte que nos escolheu? E se estiverem supridos de torpedos e pouco preocupados em regressar? Os acordes dessas hélices cessarão. Mas quanto aos seus mantenedores? Para onde irão esses seres? Coitados! Queria poder abrigá-los, todos, em nosso limitado espaço. Muitos, no início, depois de abatidos, foram resgatados como prisioneiros e deixados em proximidades costeiras, mas a guerra tem não sei bem se piorado ou melhorado seus traços, a ponto de, agora, sermos obrigados a fuzilar. Mas quem fuzila, a Guerra em si, as tensões da Política corrente ou o próprio Ser manejador de fuzis, metralhadoras, canhões? Aí é que me pergunto; quem me trouxe para dentro dessas anteparas? Que entidade me apresentara a este gosto de ferrugem e óleo? O que mantém meu atual estado; 20 anos, deitado, de bruços, como eu, Kruspe chora ao meu lado, meus pensamentos visitam minha casa, Liebe Mutter6, meus irmãos… De repentino, a zoada dos motores retoma e nossas hélices iniciam sua cantoria própria…As lágrimas se vão!
[1] Viagem
[2] Munique
[3] Alemanha
[4] Eu ainda sou um tenente! Porém, ele é o comandante!
[5] Deus
[6] Querida mamãe.
Esporros